"Rio de Onor" assume-se como o primeiro estudo monográfico a nível mundial sobre uma povoação rural dividida por uma fronteira política internacional. Jorge Dias aplica o método funcionalista e orgânico para radiografar esta aldeia transmontana da lombada de Bragança, a qual se reparte fisicamente entre o território português e o território espanhol (onde assume o nome de Rihonor de Castilla). O autor demonstra como, apesar da separação administrativa imposta pelos dois Estados, a população local desenvolveu uma identidade híbrida assente num sistema de aculturação mútua, mantendo vivas instituições sociais arcaicas e uma administração interna autónoma.
O núcleo do livro disseca as regras do comunitarismo agro-pastoril, um modelo de sobrevivência colectiva onde a entreajuda dita o quotidiano. O etnólogo descreve minuciosamente a gestão partilhada dos pastos, o rebanho único vigiado à vez pelos vizinhos, o usufruto comum do touro do povo, da forja e do forno de panificação. Acima de tudo, a obra destaca o papel do "Conselho" — uma assembleia democrática local de cariz patriarcal liderada pelos mordomos, que aplicava a justiça interna e multava quem falhasse aos deveres comunitários através de marcas gravadas num pedaço de madeira. Mais do que um mero registo de folclore, este trabalho monumental ergue-se como um documento científico essencial sobre o isolamento geográfico como factor de preservação cultural e sobre a impressionante capacidade humana de auto-organização social.