"A Revolução de Setembro de 1836: Geografia Eleitoral" propõe uma abordagem inovadora ao estudo do pronunciamento militar e popular que pôs termo ao Devorismo e suspendeu a Carta Constitucional de 1826. Afastando-se das narrativas lineares que se focavam unicamente nos acontecimentos militares da capital, Sacuntala de Miranda utiliza mapas, tabelas estatísticas e dados de votações da época para cartografar o comportamento político do país. O livro demonstra que a adesão ao movimento liberal radical não foi uniforme, revelando uma profunda clivagem geográfica e económica entre as diferentes regiões do território continental.
A autora esmiúça o modo como o Setembrismo colheu o seu principal apoio eleitoral e cívico nos centros urbanos e nas faixas litorais, onde a pequena burguesia comercial, os artesãos e a intelectualidade exigiam o fim dos privilégios da velha aristocracia e da alta finança. Em contrapartida, o estudo evidencia a resistência ou a indiferença das populações do interior rural, onde as estruturas tradicionais e a influência do clero conservavam uma base eleitoral mais alinhada com o Cartismo ou mesmo com as saudades do Absolutismo. Com esta análise minuciosa da geografia do voto, a obra ergue-se como um instrumento fundamental para compreender a instabilidade crónica do século XIX português, provando que os conflitos ideológicos da época estavam intrinsecamente amarrados às assimetrias do desenvolvimento regional.