"Os Dias da Comuna" transporta o espectador para o turbulento cenário de Paris na Primavera de 1871, logo após a derrota da França na Guerra Franco-Prussiana. Recusando a estrutura do drama burguês tradicional centrado num único herói, Bertolt Brecht adopta uma perspectiva colectiva. A acção divide-se entre as ruas da capital — onde acompanhamos um grupo de cidadãos comuns, operários e soldados acantonados no bairro de Montmartre (como a família Cabet e os seus amigos) — e os salões oficiais de Versalhes, onde a burguesia e as forças reaccionárias lideradas por Adolphe Thiers conspiram para esmagar a revolta.
A peça cartografa cronologicamente os dois meses de existência da Comuna, ilustrando com entusiasmo as reformas humanistas e pioneiras introduzidas pelo povo: a abolição do exército permanente, a igualdade salarial, a separação entre a Igreja e o Estado e a gestão colectiva das fábricas. Contudo, fiel ao seu método pedagógico e dialéctico, Brecht não se limita a idealizar o movimento. O cerne do debate dramático reside na hesitação e no excesso de pacifismo dos comuneiros que, imbuídos de uma generosidade utópica, recusam marchar sobre Versalhes ou confiscar o ouro do Banco de França. Esta fraqueza táctica acaba por isolar Paris, culminando na invasão brutal das tropas governamentais e no massacre sangrento da "Semana Sangrenta". A obra funciona como uma lição de história em moldes teatrais, instigando o público a reflectir sobre a necessidade do uso do poder e da força organizada para defender as conquistas da justiça social.