Recordações da Casa Amarela (1989) é uma célebre comédia satírica portuguesa realizada, escrita e protagonizada por João César Monteiro, marcando a primeira aparição do seu icónico alter-ego, a personagem João de Deus. A longa-metragem venceu o prestigiado Leão de Prata no Festival de Veneza.
Em Lisboa, no ano de 1989, João de Deus é um indivíduo de meia-idade, pobre, doente e sem rumo na vida, que reside alugando um quarto numa pensão barata e familiar da zona velha e ribeirinha da cidade. Incapaz de lidar com as responsabilidades quotidianas, sobrevive de pequenos expedientes e cultiva paixões intelectuais requintadas, alimentando-se da música de Franz Schubert e de uma vaga cinefilia como formas de resistência psicológica à extrema miséria em que se encontra.
O frágil equilíbrio da sua rotina colapsa quando as suas obsessões excêntricas ultrapassam os limites morais. João é expulso da pensão pela dona do alojamento após uma tentativa frustrada contra o pudor da jovem filha desta. Sem qualquer dinheiro, abrigo ou rede de apoio, vê-se abandonado à própria sorte e confrontado com a agressiva crueza do espaço urbano lisboeta.
Ao atingir o limite da privação social e da degradação mental, acaba por ser internado num hospício (a "Casa Amarela"). Na instituição psiquiátrica, o protagonista cruza caminhos com um velho amigo e também doente mental. Este incita-o a sair dali por decisão própria e atribui-lhe uma estranha, poética e subversiva missão de vida que selará o destino do seu percurso dali em diante: "Vai, e dá-lhes trabalho!".