- Novo
1.ª ed., Afrodite, 1966. 215 pp.
Tradução de Helder Henrique.
Prefácios de David Mourão-Ferreira e Luiz Pacheco.
Ilustrações e capa de João Rodrigues.
[bom estado]
A Filosofia na Alcova, obra do polémico Marquês de Sade publicada primitivamente em mil setecentos e noventa e cinco, combina o erotismo explícito com dissertações filosóficas radicais que atacam a religião, a moral tradicional e o conceito de Estado. No contexto português, o livro ganhou uma relevância histórica extraordinária quando, em mil novecentos e sessenta e seis, o ousado editor Fernando Ribeiro de Mello o publicou através das suas Edições Afrodite. Esta primeira edição contava com uma tradução de António Manuel Calado Trindade que o escritor Herberto Helder, inicialmente encarregue da tarefa, lhe passara, sendo assinada sob o pseudónimo colectivo de Helder Henrique. O volume continha ainda prefácios marcantes de David Mourão-Ferreira e de Luiz Pacheco, além de ilustrações arrojadas de João Rodrigues. A reacção do regime do Estado Novo foi implacável e imediata, ordenando a apreensão em massa da obra nas livrarias por ultraje à moral pública. Contudo, o caso não se limitou ao habitual confisco discreto da censura e transformou-se num dos episódios mais célebres de repressão cultural da ditadura, dando origem a um gravoso processo por abuso de liberdade de imprensa que correu termos no temido Tribunal Plenário de Lisboa. Ribeiro de Mello tornou-se, assim, um dos raros editores levados a julgamento criminal efectivos durante este período. O processo judicial arrastou-se até Novembro de mil novecentos e sessenta e sete e culminou na condenação severa de quase todos os envolvidos, incluindo penas de prisão efectiva e pesadas multas para o editor e para Luiz Pacheco. O desfecho desta acção judicial ficou ainda tragicamente marcado pelo suicídio do pintor e ilustrador João Rodrigues, que não resistiu à forte pressão psicológica do interrogatório e do julgamento político. Décadas mais tarde, já em mil novecentos e setenta e cinco e após a queda do regime salazarista, a Afrodite relançou a obra incluindo em posfácio toda a documentação histórica, autos de declarações e despachos de pronúncia daquele tribunal, transformando o livro num testemunho documental eterno sobre a luta pela liberdade de expressão e a censura moral em Portugal.