- Novo
1.ª ed., Caminho, 1989. 348 pp.
[miolo em excelente estado, brochura com algum desgaste, perda de cor na lombada]
A História do Cerco de Lisboa, de José Saramago, narra a história de Raimundo Silva, um revisor de texto profissional de uma editora lisboeta a quem é confiada a revisão de um livro de história intitulado precisamente História do Cerco de Lisboa. Cansado da rotina e impelido por um súbito ato de rebeldia intelectual e existencial, o revisor decide alterar deliberadamente os factos históricos da obra, introduzindo a palavra «não» numa frase crucial: a afirmação de que os cruzados decidiram não ajudar os portugueses a reconquistar a cidade aos mouros em 1147. Esta flagrante adulteração, que desafia a verdade histórica estabelecida, é rapidamente descoberta pela editora, mas em vez de resultar na sua demissão imediata, o ato desperta a curiosidade e o fascínio de Maria Sara, a sua nova e determinada diretora de produção editorial. Compreendendo o potencial criativo e a audácia daquela alteração, Maria Sara desafia Raimundo Silva a assumir as rédeas da ficção e a escrever o seu próprio romance com base nessa premissa alternativa, criando uma versão em que a tomada de Lisboa se faz sem o auxílio das forças estrangeiras. A partir desse momento, a narrativa desdobra-se em dois planos paralelos e profundamente interligados, onde o processo de escrita do novo livro se cruza constantemente com a vida do próprio revisor. No plano ficcional e histórico, acompanhamos o desenrolar do cerco imaginado, a dureza dos combates, a estratégia das forças de D. Afonso Henriques e o amor do soldado Mogueime pela jovem Ouroana. No plano contemporâneo, a cumplicidade literária entre Raimundo e Maria Sara transforma-se progressivamente numa intensa e madura história de amor, demonstrando como a reinvenção da história passada pode abrir caminho para a transformação e renovação da própria vida pessoal do protagonista. Com a sua escrita fluida e caraterística, o autor utiliza esta premissa para refletir sobre a maleabilidade da memória histórica, o poder absoluto da palavra escrita e o modo como o livre-arbítrio e o afeto podem desafiar tanto o destino como as verdades consideradas absolutas.